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Jornalismo que não cabe no óbvio

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Cory Doctorow em entrevista a Jose A. Cano, no El Salto | Tradução: Rôney Rodrigues

Cory Doctorow é autor de ficção científica, ativista e jornalista. Conhecido por sua atuação em defesa do software livre e do Creative Commons, publica na Espanha Mierdificação: O que fazer diante da apropriação da internet pelas grandes empresas de tecnologia [ainda sem tradução no Brasil]. Trata-se de um ensaio sobre a enshittification, conceito criado pelo próprio Doctorow em um artigo de 2023 em seu blog Pluralistic, com o qual descreve a decadência das plataformas de internet — ou, ao menos, a deterioração progressiva de seus serviços para usuários comuns e pequenas empresas, com o objetivo de extrair o máximo de renda possível, seja na forma de dados, publicidade ou outros serviços.

O autor concede entrevista ao El Salto por videoconferência alguns dias antes de sua viagem ao nosso país, onde irá apresentar sua nova obra. Antes de começar, Doctorow, que arranha um pouco de espanhol, comenta a perda de ambiguidade na tradução do conceito de enshittification para o nosso idioma: “Shit, em inglês, é tanto um substantivo quanto um verbo; portanto, enshittification é algo que acontece — tudo se transforma em merda —, mas também algo que alguém faz. Em espanhol, seria ‘cagar’, e essa conotação se perde em ‘mierdificación’”, explica. Para o autor, “a ambiguidade funciona. Pode ser uma característica (feature), e não um erro (bug)”.

Você diria que a ideia da “merdificação” da internet e das redes está mais atual agora do que há quatro anos, quando criou o termo?

Sim, acho que sim. Quando pensei no conceito, estava tentando encontrar uma palavra que desse conta de descrever tudo isso. Durante 25 anos trabalhei na Electronic Frontier Foundation, uma ONG cujo objetivo é fazer com que as pessoas reflitam sobre as políticas tecnológicas. E o problema de tentar levar as pessoas a pensar sobre política tecnológica é que se trata de questões muito abstratas, muito técnicas e quase sempre voltadas para o futuro. O mais comum é nos preocuparmos com problemas que são concretos e imediatos.

E os temas tecnológicos só se tornam concretos e imediatos quando já é tarde demais para corrigi-los. Um pouco como acontece com as mudanças climáticas. Em 1980, era algo muito distante, muito abstrato; hoje é algo bastante concreto — mas porque tudo está pegando fogo. Então você tenta todo tipo de estratégia para fazer com que as pessoas se preocupem com essas políticas tecnológicas.

Já usei parábolas, analogias… Escrevo contos e romances de ficção científica. E, no fim das contas, é uma palavra “suja” que realmente funciona. Foi como dar às pessoas permissão para reclamar de algo que as estava enlouquecendo, sem que soubessem exatamente por quê. E, voltando à pergunta, sim: acho que as pessoas têm todo o direito de estar mais irritadas hoje do que estavam há três ou quatro anos, sem dúvida.

Em seu ensaio, você aborda possíveis soluções. Na Europa, neste momento, temos governos como o da França, que abandonaram todos os programas vindos dos Estados Unidos para suas comunicações, além do debate sobre como obter tanto uma infraestrutura física própria quanto plataformas sob controle europeu — algo que parece um arranjo muito distante no tempo.

A Europa passou 20 anos apegada a duas crenças bastante negativas. A primeira: que a tecnologia estadunidense era uma plataforma neutra e que seu governo poderia utilizá-la sem consequências. A segunda: que, se as plataformas se comportassem “mal”, a resposta seria regulá-las, em vez de reduzir seu poder. E assim se perderam duas décadas com mandatos para moderação de conteúdo ou infrações de direitos autorais. Algo que não funcionou, não é mesmo?

O problema é que, quanto mais poderosas são as plataformas, menos se importam com as suas exigências. Olhe para o GDPR [Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados]. Eu mesmo fiz lobby em Bruxelas a favor dele. E as empresas de tecnologia não o cumprem. Elas fingem que sim, bombardeiam as pessoas com solicitações de consentimento e dizem que podem vigiá-las porque é um “propósito legítimo”. E se você tenta discipliná-las, elas se refugiam na Irlanda, que é onde toda a regulação tecnológica vai morrer.

O DMA [Lei dos Mercados Digitais] foi a primeira tentativa de reduzir o poder delas, exigindo que a Apple ou a Google abrissem suas lojas de aplicativos, por exemplo. Mas chegou tarde. Elas já eram tão poderosas que nem se importavam em cumprir as regras.

Com Biden na Casa Branca, podia parecer que os EUA ajudariam a Europa, mas agora Trump está no poder e já vemos o uso que ele faz da “internet americana”. Se o Tribunal Penal Internacional processar Netanyahu, os EUA de Trump deixam os magistrados sem e-mails, sem arquivos, sem documentos… Se o Supremo Tribunal Federal do Brasil processar Jair Bolsonaro, a mesma coisa. Ninguém pode permitir que suas instituições-chave dependam da tecnologia dos EUA.

Assim, chegamos ao Eurostack, que é uma tentativa de corrigir os erros dos últimos 20 anos. São as duas respostas à sua pergunta: obter o hardware, a parte física, e plataformas 100% europeias. Não quero dizer que sejam objetivos fáceis, mas ambos têm grandes grupos de interesse por trás. Os investidores querem construir data centers porque querem ser proprietários, adoram a ideia de renda passiva. E algo semelhante acontece com as plataformas. O mundo está cheio de geeks que odeiam o Facebook e gostariam de criar o seu próprio. Você não consegue dar um passo sem esbarrar em alguém que está criando um substituto para o Facebook, Twitter, YouTube ou o que quer que seja.

O que falta é que seja possível extrair os dados das plataformas estadunidenses e transferi-los para essas novas plataformas europeias, hospedadas em centros de dados europeus. Nenhum ministério vai copiar um a um milhões de documentos da Microsoft para um aplicativo do Eurostack. Você precisa de ferramentas, e a Microsoft não vai fornecê-las.

A questão é como construímos essas ferramentas que funcionem como uma ponte entre a velha internet, na qual estamos presos, e a internet pós-americana de que precisamos para sobreviver. São soluções distantes no tempo, mas a solução para a ponte está em legalizar o desbloqueio [“jailbreak”] dessa tecnologia. A diretiva europeia de direitos autorais torna ilegal qualquer modificação sem permissão do criador — não do governo, mas da empresa proprietária — desde 2001.

Isso está, sim, ao alcance da União Europeia. Ela não pode obrigar a Apple a fazer coisa alguma, mas pode impedir que a Apple leve a tribunal europeu uma empresa espanhola que crie uma loja de aplicativos para o iPhone. Pode mudar essa lei amanhã. Isso não só aceleraria a saída dos europeus das plataformas americanas, como também criaria oportunidades de mercado. As empresas americanas faturam milhões de dólares que poderiam ser ganhos por empresas europeias.

E como facilitamos a saída para todas aquelas pessoas comuns que não são especialistas, nem trabalham para grandes empresas ou para o Estado?

É a mesma solução, envolvendo engenharia reversa e jailbreaking. No livro, conto como Mark Zuckerberg fez com que os usuários deixassem o MySpace para migrarem para o Facebook. Ele enfrentava o mesmo problema: as pessoas não saíam do MySpace porque lá estavam todos os seus amigos. Os economistas chamam isso de problema da ação coletiva. E o que Zuckerberg fez foi oferecer um botão ao qual bastava fornecer a senha da outra plataforma, e ele transferia para o Facebook tudo o que você tinha lá.

O problema é que, sob o Artigo 6 da Diretiva de Direitos Autorais, se alguém fizesse isso com o Facebook, Mark Zuckerberg poderia reduzir essa pessoa a escombros radioativos. Quando ele fez isso, foi progresso. Se nós fizermos o mesmo com ele, é pirataria. E eles jogam com isso: se sabem que mantêm seus usuários presos, podem abusar deles sem correr riscos. Isso também é a “enshittification”.

Mark Zuckerberg quer que você o odeie, mas apenas um pouco menos do que quer seus amigos, de modo que você acabe ficando no Facebook. Qual é a importância de ter um lugar onde você possa se organizar com outros pais para levar seus filhos ao futebol, encontrar clientes para o seu negócio, conversar com parentes que estão longe? Enquanto o valor que os usuários da plataforma oferecem uns aos outros superar o valor que Mark Zuckerberg extrai deles, a maioria vai permanecer.

Mas e se você reduzir o custo de sair? Acontece o mesmo com as operadoras de telefonia: se você está na Vodafone e não gosta, muda para a Orange — pode ser tão fácil quanto colocar seu número em um site. Antes era muito mais caro, mas a UE interveio para criar a portabilidade. Hoje, ninguém se importa em qual rede você está, você não precisa fazer com que seus contatos migrem para a mesma operadora que a sua. É possível reproduzir essa dinâmica em nossos sistemas digitais. É até estranho que ainda não o tenhamos feito. É como se estivéssemos nos anos 90, e o que falta é trazer isso para o século XXI.

Isso explica o paradoxo de que todo mundo acredita que Google, Twitter e outras plataformas funcionam pior do que nunca, mas não as abandonam?

Na economia neoclássica, existe essa ideia chamada “preferência revelada”. Significa que não importa o que você diga: se você age de forma diferente, é porque secretamente prefere o que está fazendo. Assim, se você diz “odeio que invadam minha privacidade”, mas usa o Facebook e eles invadem sua privacidade, então, na verdade, você não valoriza tanto assim a privacidade. Eu acho que isso está errado. Às vezes é como se estudar economia causasse uma lesão neurológica muito específica, que torna a pessoa incapaz de raciocinar sobre poder. As dinâmicas de poder fazem com que as pessoas façam coisas que não querem fazer.

Olha, entre os grupos que estão tentando com muita força se estabelecer fora do Twitter estão os ativistas do que nos EUA se chama Black Twitter, que criaram seu próprio servidor no Bluesky, o BlackSky, mas ainda não conseguiram sair de vez do atual X. Eles querem deixar o Twitter porque são membros de uma minoria racial que ali fica exposta ao abuso e ao assédio, mas não querem ficar isolados, nem perder sua rede de apoio digital. As pessoas podem permanecer em situações ruins porque valorizam aqueles que estão ao seu redor.

Olha, minha família são refugiados soviéticos. Minha avó foi uma criança-soldado no cerco de Leningrado, esteve lá dos 12 aos 15 anos arrastando cadáveres e levando munição para as linhas de frente. De lá, foi para a Sibéria, onde conheceu meu avô, que era um refugiado polonês; tiveram meu pai e foram para o Canadá. Mas eles são os únicos. Todo o resto da família ficou na Rússia, passando por muitas dificuldades, na era soviética e depois. As pessoas permanecem em lugares onde não querem estar.

No seu livro de ficção científica Radicalizado, de certa forma, você antecipou Luigi Mangione no conto que dá título à obra, e levou a “merdificação” ao extremo antes mesmo de nomeá-la em “Pão Não Autorizado”. Como autor de distopias, por que você acha que não escrevemos mais sobre como sair delas?

Bem, cada uma das histórias desse livro tem algum tipo de final feliz. A utopia não consiste em violar a segunda lei da termodinâmica. As coisas se desmoronam. Supor que nada vai dar errado não é otimismo, é idiotice. As pessoas que não colocaram botes salva-vidas suficientes no Titanic não eram otimistas, eram idiotas perigosos. Eu acho que está certo — e não é pessimismo — imaginar que as coisas podem se quebrar. O imperdoável é imaginar que não podemos consertá-las. É por isso que todas as minhas histórias tratam de pessoas que consertam coisas.

É verdade que se vê um futuro com coisas bastante ruins no horizonte. Há muitos efeitos das mudanças climáticas que já estão determinados. Não vão mudar. Mas o que fizermos com as inundações que estão por vir depende de nós. Isso vai se transformar em algo como Mad Max? Ou vamos nos salvar mutuamente? Isso depende completamente de nós.

Para mim, a esperança não é a crença otimista de que pode existir uma sociedade em que tudo funcione sempre, mas a ideia de que podemos criar uma sociedade que falhe com elegância. Onde, quando as coisas dão errado, elas são corrigidas. É melhor ter um carro com freios excelentes do que um que vai de 0 a 200 km/h em três segundos.

O lado positivo do desastre em que nos encontramos é que as crises provocam mudanças, e aquilo que parecia impensável torna-se inevitável. Quando Vladimir Putin invadiu a Ucrânia e a Europa perdeu o acesso ao gás russo, o entrave às energias renováveis chegou ao fim. O continente passou de um atraso de 15 anos em suas metas climáticas para estar 10 anos à frente. Na Alemanha, com este novo choque energético vindo do Irã, o impacto é pequeno, porque agora o país dispõe de uma enorme quantidade de energia solar. Claro que há motivos para preocupação. Toda essa energia solar está conectada à nuvem chinesa, e Xi Jinping poderia desligá-la se quisesse. Esse é mais um bom motivo para revogar o Artigo 6 da Diretiva de Direitos Autorais, eliminar o firmware desses inversores e baterias e substituí-lo, o quanto antes, por software de código aberto. Vou insistir nesta ideia: em tempos de grandes crises, aquilo que parecia impensável pode se tornar inevitável. E Donald Trump é uma série contínua de crises. Esta é a nossa oportunidade.

Cory Doctorow: “La pregunta es cómo crear las herramientas para el internet posnorteamericano que necesitamos”
www.elsaltodiario.com

Cory Doctorow: “La pregunta es cómo crear las herramientas para el internet posnorteamericano que necesitamos”

El novelista y activista Cory Doctorow publica en España su ensayo ‘Mierdificación’, en el que propone acabar con el poder de las grandes compañías tecnológicas derogando las leyes de copyright que las blindan.

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· 6mo ago

Título original:
Neopatrimonialismo e os donos do poder no Brasil contemporâneo

O problema do Brasil contemporâneo não é a mera sobrevivência do patrimonialismo arcaico. O que se consolidou nas últimas décadas de dominância neoliberal foi algo mais sofisticado na reconfiguração dos donos do poder e, por isso mesmo, mais difícil de combater pela consolidação do neopatrimonialismo.

Em vez da apropriação direta e visível do Estado por uma casa senhorial, como no tipo ideal de dominação patrimonial formulado por Max Weber, o que se observa hoje no Brasil é a captura do público por interesses privados sob a linguagem da técnica, da austeridade, da governança e da responsabilidade fiscal. Em Weber, o patrimonialismo designa uma forma de dominação baseada na ausência de separação clara entre o patrimônio do governante e os bens da administração pública. O mando político, nesse caso, organiza-se pela lógica doméstica da fidelidade pessoal.

Em Raymundo Faoro, essa chave interpretativa foi adaptada para explicar a formação brasileira por meio do estamento burocrático, isto é, de uma camada dirigente que transforma o Estado em instrumento de mando e reprodução de privilégios. O Brasil de hoje, porém, já não cabe inteiramente nem na casa patriarcal descrita por Weber nem no estamento faoriano em sua forma clássica. O que temos é a modernização da velha apropriação privada do Estado.

A diferença central é simples e está na compreensão do patrimonialismo clássico operado pela pessoalização aberta do poder, enquanto o neopatrimonialismo atua pela impessoalidade aparente do privilégio. O favor não desaparece, apenas muda de forma. Sai de cena como deferência pessoal e reaparece como contrato, ajuste, renúncia fiscal, captura regulatória, meta de superavit, independência tecnocrática, reestruturação gerencial, parceria público-privada e disciplina de mercado.

O que antes era a apropriação privada do Estado por linhagens políticas e burocráticas tornou-se, hoje, a subordinação do Estado à lógica da acumulação financeirizada. Não se trata de “menos Estado”, mas de outro uso do Estado como menor garantia de direitos e mais comprometido com a proteção da riqueza, propriedade, pagamento da dívida, fluxos financeiros e grandes interesses econômicos. Ao longo de mais de três décadas de dominância neoliberal no Brasil, o Estado capturado passou a sustentar a continuidade dessa ordem neopatrimonial por meio de juros elevados, rearranjos cambiais, baixo investimento, privatizações e reconfiguração das políticas públicas.

Por isso, parece ser um erro teórico e político tratar a corrupção contemporânea apenas como resíduo pré-moderno ou simples desvio moral de agentes públicos. Essa visão interessa ao próprio neoliberalismo que desloca o foco da estrutura de poder para o escândalo individual. Assim, a corrupção passa a ser apresentada como problema quase exclusivo do Estado, como se o encolhimento da esfera pública fosse, por si só, a solução.

Mas a experiência brasileira não confirma essa simplificação. O que importa não é o tamanho abstrato do Estado, mas quem controla suas instituições, em benefício de quais interesses e sob quais mecanismos de responsabilização. Estruturas públicas mais profissionalizadas e mais capacitadas tendem a fortalecer, e não a enfraquecer, o controle sobre práticas corruptivas.

Na sua forma neoliberal, a corrupção não se resume mais a propina, clientelismo ou troca de favores, embora tudo isso continue existindo. Ela se transforma também em arquitetura institucional do privilégio. Corrupção, nesse plano, é fazer da legalidade um mecanismo de transferência regressiva de riqueza, organizando regras fiscais, monetárias, regulatórias e administrativas de modo que interesses privados apareçam como se fossem interesses gerais.

Quando o fundo público é comprimido para os direitos sociais, mas preservado para a remuneração financeira, quando se cobra austeridade do trabalho e se oferece generosidade ao capital, quando se desmoraliza o planejamento estatal em nome da eficiência de mercado, ao mesmo tempo em que se blindam interesses rentistas e oligopolistas, não se está diante da superação do patrimonialismo, mas de sua atualização histórica. O velho privilégio oligárquico apenas passou a falar a linguagem do Excel, da consultoria, da classificação de risco e da governança corporativa. A financeirização, nesse contexto, reduz a margem de decisão soberana do Estado e impõe limites concretos às políticas econômica, social, ambiental e cultural.

Esse arranjo produz efeitos materiais profundos. A hegemonia da finança e da ortodoxia macroeconômica ajudou a consolidar no Brasil um padrão de crescimento frágil, dependente e socialmente regressivo. A desindustrialização se prolonga há décadas, enfraquecendo a capacidade de inovação, a densidade produtiva, o emprego qualificado e a base do desenvolvimento de longo prazo.

A isso se soma a reprimarização da pauta exportadora que recoloca o país em posição historicamente subordinada na divisão internacional do trabalho. A predominância de produtos primários sobre manufaturados não é apenas um fenômeno conjuntural, mas uma regressão estrutural. Quando financeirização, desindustrialização e reprimarização caminham juntas, o resultado é um país mais vulnerável, menos complexo, mais dependente dos ciclos internacionais e menos capaz de distribuir riqueza e poder de forma democrática.

É por isso que a noção de neopatrimonialismo é mais fecunda que a repetição genérica do diagnóstico sobre o patrimonialismo brasileiro. O que está em curso não é a simples permanência do passado, mas a sua reengenharia sob o neoliberalismo. O patrimonialismo clássico dissolvia a fronteira entre a casa do governante e a coisa pública. O neopatrimonialismo dissolve a fronteira entre Estado e mercado dominante, entre norma pública e interesse rentista, entre política econômica e preservação de privilégios estruturais.

Antes, o poder privatizava o Estado por meio do mando pessoal. Agora, privatiza-se o Estado por meio de dispositivos impessoais como nos índices de risco, metas fiscais, contratos, agências, consultorias e justificativas pretensamente neutras. O mecanismo mudou, a substância oligárquica, não.

Assim, a grande mistificação ideológica do neoliberalismo brasileiro foi apresentar-se como antídoto contra o patrimonialismo, quando na verdade operou como sua forma mais sofisticada. Combateu o servidor e protegeu o rentista. Demonizou o público e sacralizou o credor. Denunciou a corrupção visível da política enquanto normalizava a captura invisível da economia política do Estado. Sob o discurso da modernização, produziu-se uma ordem em que o público continua sendo apropriado privadamente, mas com mais blindagem jurídica, mais sofisticação técnica e maior legitimidade midiática. O resultado não é apenas corrupção em sentido estrito, mas uma corrupção ampliada da própria finalidade do Estado.

Em suma, se Weber oferece o modelo da dominação patrimonial tradicional e Faoro mostra como o Estado brasileiro foi historicamente apropriado por um estamento burocrático, o presente exige ir além deles sem abandoná-los. O Brasil contemporâneo vive uma forma de dominação em que a privatização do público já não depende da figura do senhor patriarcal nem do estamento em sua forma original. Ela se realiza pela convergência entre elites políticas, frações do capital financeiro, grandes interesses exportadores e aparatos tecnocráticos que sequestram a capacidade estatal em nome da eficiência.

O nome mais adequado para isso não é simplesmente patrimonialismo. É neopatrimonialismo que sob a dominância neoliberal gerou a ordem em que o privilégio deixou de se envergonhar de si mesmo porque aprendeu a se apresentar como racionalidade econômica.

Referências

EMOINGT, B. ; SILVA, M. The neoliberal conception of corruption in the accounting literature. Revista de Contabilidade e Organizações, 2023.

FAORO, R. Os Donos do Poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo, 2001.

POCHMANN, M. Estado e capitalismo no Brasil: a inflexão atual no padrão das políticas públicas do ciclo político da Nova República. Educação & Sociedade, 2017.

SAAD-FILHO, A. Varieties of Neoliberalism in Brazil (2003–2019). Latin American Perspectives, 2020.

WEBER, M. Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. 4.a ed. Brasília, Unb, 2022.

FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder: formação do patronato político brasileiro. 5. ed. São Paulo: Globo, 2012.

SAAD-FILHO, Alfredo. “Varieties of Neoliberalism in Brazil (2003–2019)”.
MACHADO, Pedro L. N. et al. “Financialization, credit rating agencies, and policy space”.
LOPES, Victor Tarifa. “A reprimarização das exportações brasileiras em perspectiva histórica de longa duração”.

FEIJÓ, Carmem; et al. “Reindustrialization in the sustainable development agenda”.

VERGNHANINI, Rodrigo. “Desindustrialização brasileira no século XXI”.

NASCIMENTO, Leonardo et al. “Mais capacidade estatal, menos corrupção?”

PAIVA, Maria E. R. “Does the size of government increase corruption? An analysis of Brazilian municipalities”

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· 4d ago
O novo Brasil que a política (ainda) ignora

Por Marcio Pochmann

O resultado eleitoral de 2026 pode ser lido para além da disputa entre candidatos e partidos. Ele revela uma sociedade que mudou profundamente nas últimas décadas e cuja transformação ainda não foi plenamente incorporada pela política, pelas instituições e pelas próprias categorias convencionais utilizadas para compreender o Brasil.

O país que vota hoje já não é mais o mesmo daquele para o qual foram desenhadas muitas das instituições econômicas, trabalhistas e políticas da Nova República. Durante grande parte do século XX, o desenvolvimento brasileiro foi pensado a partir da sociedade urbana e industrial, como fábricas, grande empresa, emprego assalariado, sindicato, estabelecimento comercial, jornada de trabalho, previdência e Estado regulador.

Esse mundo não desapareceu. Mas deixou de ser suficiente para explicar a totalidade do país. A economia brasileira tornou-se predominantemente de serviços, enquanto a digitalização modificou a própria forma de produzir e distribuir. A residência pode ser simultaneamente moradia, escritório, cozinha produtiva, loja, estúdio e espaço de prestação de serviços. O telefone celular transformou-se em instrumento de trabalho, comercialização, pagamento, publicidade e relacionamento com clientes.

Em 2025, por exemplo, 95% dos domicílios brasileiros tinham acesso à internet e 97,4% possuíam telefone celular. São aproximadamente 76 milhões de domicílios conectados. O dado não representa apenas inclusão tecnológica, pois revela a formação de uma nova infraestrutura social e econômica no país.

É preciso, porém, ir além da ideia convencional de economia digital. Ela costuma aparecer como se fosse mais um setor ao lado da indústria, da agropecuária e dos serviços. Essa definição tornou-se insuficiente. A economia digital é, cada vez mais, uma infraestrutura que atravessa praticamente todos os setores.

Está no aplicativo bancário que permite receber e transferir dinheiro, no sistema de pagamento utilizado pelo pequeno comerciante, no aplicativo que leva o alimento produzido em uma cozinha doméstica até o consumidor, no marketplace que transforma uma residência em ponto de venda, no algoritmo que distribui publicidade ao produtor de conteúdo, na plataforma que conecta motorista e passageiro, no software que organiza uma pequena empresa, na nuvem que hospeda seus dados, na inteligência artificial que começa a participar da produção intelectual.

Por isso, uma pergunta mais importante do que quantos brasileiros trabalham no chamado num setor digital é buscar saber quantos dependem diretamente da infraestrutura digital para realizar seu trabalho e obter renda? Não existe ainda uma estatística nacional oficial, capaz de medir integralmente esse universo.

Mas, considerando trabalhadores de aplicativos, comércio eletrônico, produtores de conteúdo, prestadores de serviços mediados por plataformas, produtores de alimentos comercializados digitalmente, atividades profissionais realizadas pela internet e outras formas de trabalho cuja produção, venda ou remuneração depende diretamente de plataformas e dados, pode-se estimar cerca de um quarto dos ocupados brasileiros já tenha dependência direta da infraestrutura digital para seu trabalho e sua renda.

Um motorista, por exemplos, que dependa de uma plataforma para encontrar passageiros está vinculado a economia digital, ainda que pertença ao setor de transporte. Do mesmo modo, o restaurante que dependa de aplicativos para receber pedidos segue vinculado ao setor alimentação, assim como o pequeno vendedor que dependa de marketplace, redes sociais e meios digitais de pagamento está vinculado ao setor do comércio.

Por outro lado, as atividades desenvolvidas na residência como o produtor de alimentos que atenda a demanda de consumidores ou a psicóloga que preste serviços remotamente, ambos por plataformas, estão conectados pela economia digital. Os produtores de conteúdo conseguem transformar a audiência em renda por meio das redes sociais.

São inenris exemplos que a digitalização, portanto, não está apenas criando novas atividades. Está reorganizando atividades antigas e modificando a forma pela qual milhões de pessoas acessam o mercado, trabalham, vendem, recebem e obtêm renda.

Essa é uma transformação decisiva para compreender o Brasil contemporâneo, bem como contribuiu também para interpretar os resultados eleitorais recentes.

A sociedade brasileira tornou-se mais conectada, mas não necessariamente mais protegida. A autonomia para trabalhar pode crescer ao mesmo tempo em que aumenta a dependência das plataformas. O pequeno produtor pode escapar da necessidade de possuir uma loja física, mas passa a depender do algoritmo para alcançar seus clientes. O trabalhador pode deixar de ter um patrão convencional, mas pode ser submetido a sistemas de avaliação, ranqueamento, preços dinâmicos e regras que não controla.

É uma nova relação de poder, uma vez que a produção se descentraliza, enquanto a intermediação pode se concentrar. Na sociedade industrial, o poder econômico estava associado sobretudo à propriedade das fábricas, máquinas, terras, lojas e redes físicas. Na sociedade digital, acrescentam-se o controle dos dados, das plataformas, dos algoritmos, dos meios de pagamento, da computação em nuvem e das redes de intermediação.

E é justamente aí que aparece o descompasso do Estado atual. Grande parte da regulação brasileira ainda foi construída para identificar empresa, estabelecimento, empregador, empregado, jornada e território. A nova economia embaralha essas fronteiras.

Onde está o estabelecimento de uma atividade realizada dentro de casa e comercializada por aplicativo? Quem é o empregador quando a jornada é organizada por um algoritmo? Como proteger alguém que combina emprego formal, trabalho por aplicativo, atividade autônoma e produção digital? Como tributar uma atividade cujo mercado, pagamento e infraestrutura estão distribuídos entre diferentes plataformas e países?

O problema brasileiro não é simplesmente ter um Estado grande ou pequeno. É ter instituições construídas para uma sociedade que mudou. Isso, por fim, rebate inexoravelmente no processo eleitoral que não pode ser reduzido a uma reação automática à economia. Nenhum resultado possui uma única causa.

Quando a eleição ocorre em um país no qual o desemprego caiu a níveis historicamente baixos sem que tenham desaparecido a informalidade, a insegurança econômica e a desigualdade de renda e proteção, o problema social deixa de ser apenas a ausência de emprego. Passou a envolver a qualidade da inserção econômica, a autonomia, a proteção, o tempo disponível, a renda e o controle sobre os meios pelos quais cada indivíduo consegue trabalhar.

É uma sociedade em que milhões de pessoas podem estar economicamente conectadas e, simultaneamente, socialmente vulneráveis. A política, em geral, ainda fala frequentemente com categorias da sociedade industrial, pois trata da antiga convenção do trabalhador versus empresário, emprego versus desemprego, fábrica versus serviço, público versus privado.

A realidade, contudo, tornou-se muito mais híbrida. A nova questão social está espalhada pelas casas, pelas ruas, pelos aplicativos e pelas plataformas. Por isso, a agenda brasileira precisa mudar.

Não parece suficiente regular o emprego tradicional. É preciso construir proteção social para trajetórias profissionais descontínuas. Não basta fiscalizar empresas convencionais. É preciso regular plataformas. Não basta discutir inclusão digital como acesso à internet. É necessário discutir quem controla os dados e as infraestruturas que organizam o trabalho e a renda.

Também não basta medir quantos brasileiros trabalham no setor digital. É preciso medir quanto da economia brasileira depende da infraestrutura digital.

Essa mudança de perspectiva é fundamental. Assim como a eletricidade transformou a indústria, o comércio e a vida doméstica sem ser apenas mais um setor econômico, dados, conectividade, plataformas e inteligência artificial estão se tornando infraestrutura geral da produção contemporânea.

O Brasil entrou nessa transformação sem ter completado sua industrialização e sem ter superado suas desigualdades históricas. Por isso, vive uma transição híbrida, contendo a indústria avançada e desindustrialização relativa, o agronegócio tecnológico e o trabalho informal, os serviços sofisticados e as ocupações de baixa produtividade, os bancos digitais e a exclusão, a inteligência artificial e a precarização.

O desafio não parece estar na escolha entre indústria e serviços, Estado e mercado, passado e futuro, mas em construir um Estado capaz de governar essa sociedade nova. Um Estado que reconheça o domicílio como espaço potencialmente produtivo, o dado como infraestrutura econômica, a plataforma como nova forma de intermediação, a inteligência artificial como tecnologia estratégica e o trabalhador digital como sujeito de direitos.

A questão decisiva para o Brasil das próximas décadas talvez seja justamente definir quem controlará as infraestruturas digitais das quais dependerá uma parcela crescente do trabalho e da renda dos brasileiros. Se a resposta estiver exclusivamente nas grandes plataformas globais, a descentralização da produção poderá conviver com uma concentração inédita do poder econômico.

Se o Brasil conseguir construir infraestrutura pública de dados, capacidade tecnológica, regulação democrática, proteção social e soberania digital, a mesma transformação poderá ampliar a autonomia produtiva de milhões de brasileiros. A eleição de 2026 não criou essa escolha, porém acontece no momento em que ela começa a se tornar incontornável.

O Brasil mudou. A questão é saber se sua política e seu Estado conseguirão mudar com ele.

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· 4d ago
Memórias do Jornalismo: Quando o partido já não basta Foto: Reprodução/COP30

O texto a seguir compõe a série Passageiro da História, memórias de Carlos Azevedo.
Leia também:
Carlos Azevedo, Passageiro da História
[1] O dia em que Jânio Quadros renunciou
[2] Memórias do Jornalismo: A Semana da Legalidade

[3] Um país polarizado e um repórter brincando com fogo
[4] Memórias do Jornalismo: Em 1964, vendo o golpe acontecer
[5] Memórias do Jornalismo: Revista ousada em tempo obscuro
[6] Memórias do Jornalismo: A ditadura arreganha os dentes
[7] Memórias do Jornalismo: Clandestinidade e “libertação”
[8] Memórias do Jornalismo: Em pauta, a revolução brasileira
[9] Memórias do Jornalismo: Sete anos no esconderijo

Em 16 de dezembro de 1976 aconteceu a sanguinária Chacina da Lapa. Com a queda do Comitê Central o partido ficou provisoriamente sem direção. Minha única ligação partidária era com Aldo Arantes, que havia sido preso. Estava sendo barbaramente torturado, mas não disse uma palavra sobre mim.  

Eu estava completamente isolado. A orientação era: não procure o partido. O partido te procura. Até que isso acontecesse se passaram dois anos.

Em 1975 nós havíamos nos mudado para uma velha casa na Vila Industrial. Tinha algumas vantagens: uma entrada para carro pelos fundos do quintal. Ficava em frente a um pequeno clube que cobrava mensalidades modestas e tinha uma boa piscina onde as crianças se divertiam. Ficava a um quarteirão da casa onde moravam a mãe e a tia de Maria Lucia. E a menos de 800 metros da estação de trem.

Embora preocupado, decidi que não íamos mudar. E tratei de manter todas as atividades que me cabiam antes. Até trabalhava ainda mais. Mantive a leitura de jornais, análise de conjuntura e produção de pautas e matérias para Movimento. 

Comprei um rádio potente e um gravador para captar o programa de rádio transmitido toda noite pelo partido pela Rádio Tirana, da Albânia. Eram falas sobre a conjuntura internacional e do Brasil. E matérias do jornal A Classe Operária, da direção do PCdoB, produzidas por João Amazonas e Renato Rabelo, que estavam exilados em Paris. Gravava, copiava a gravação em finas folhas de papel de seda (10 cópias) e enviava para vários endereços. 

Além disso, durante aquele período escrevi dois livros. Um sobre a política etnocida da ditadura contra os indígenas, que enviado para o Exterior, foi traduzido em diversas línguas. E serviu de prova contra a ditadura no Tribunal de Bertrand Russel. O outro livro tratava da estrutura agrária do Brasil, que avaliei erradamente como semifeudal. A parte desse livro que trazia dados estatísticos sobre a propriedade da terra foi publicada em Movimento.

Além disso fazia caminhadas diárias, boas para a saúde física e também muito úteis para ir pensando nos materiais que produzia.

Nessa altura tínhamos uma kombi. Fazia parte de um projeto nosso de produzir e comercializar plantas ornamentais, que fracassou. A kombi ficou e a usamos em passeios e viagens. Em algum momento em 1978 viajamos Maria Lucia, Ana (9 anos), eu e a cachorra Bolinha pelo litoral Sul. Retirado o banco do meio, instalamos um tablado com colchonete que serviria de cama para nós três. Por baixo ia um fogão a gás, panelas e alimentos. Bolinha dormiria no banco da frente.

Viajamos com muita calma de Campinas a Cananéia, de balsa passamos para Ilha Comprida, uma praia de 70 quilômetros. Ali descobri que esquecera de trazer água suficiente. Viajamos por algumas horas pela praia e só fomos encontrar água ao entardecer. 

Dormimos dentro da kombi. Dia seguinte, deparamos um pescador chegando do mar. Vinha aborrecido porque só capturara duas pescadas amarelas. Quisemos comprar, ele não aceitou vender, nos deu.  Maria Lucia fez com elas uma gostosa salada do peixe com batata e cebola. Fiz uma batida de cachaça com limão. Passamos horas brincando nas ondas de águas cristalinas, Bolinha inclusive, mas sem descuidar de Ana. Se a menina ia mais fundo um pouco a cachorra já corria para perto dela.

Maria Lucia queria tomar um banho de água doce. Viajamos para Peruibe, tomamos banho num hotelzinho e jantamos na praia. Na manhã seguinte fomos ao Guaru, que então era um recanto selvagem. Na margem do rio havia um rancho de pescadores. Atravessamos o rio e caminhamos pela praia. Lembro-me em determinado momento que uma grande cobra verde desceu pelo barranco bem na nossa frente e entrou no mar. Paramos no caminho e Maria Lucia fez um almoço com camarão. Na manhã seguinte começamos a voltar. Paramos num posto para abastecer. O frentista veio limpar o para-brisa. Bolinha, que fazia a segurança, latiu furiosa. “Calma, ele só está limpando o vidro”.    

Rogério não pôde viajar porque estava trabalhando e namorando. Luciano, 13 anos, não quis vir, ficou cuidando dos vários gatos da casa, vendo TV horas sem fim, tomando Toddy com leite e pão, seu alimento preferido. Ele sempre iria gostar de ficar em casa. 

A ditadura, em crise econômica e perdendo sustentação política, fazia concessões. Havia pressão dos exilados, dos presos políticos e aos poucos a campanha pela anistia ganhou apoio na sociedade. Em vez da anistia ampla, geral e irrestrita o regime fabricou uma anistia que antes de qualquer aspecto, livrava a cara dos torturadores e assassinos, e foi dando aos pedaços anistia para os opositores políticos. Ainda assim, foi um avanço: os presos deixaram os presídios e os exilados puderam voltar ao país. No Brasil não acontecem mudanças transformadoras. Acossada, a oligarquia recua soltando pedaços de concessões. 

A ditadura ainda iria se arrastar por seis anos, negociando seu recuo, com concessões à oposição democratizante, mantendo no essencial o entulho autoritário. Mais que isso, visto em perspectiva se constata o prevalecimento da oligarquia empedernida que até os dias de hoje (2026) maneja os cordões do poder. Por vezes a tendência popular chega ao governo, mas nunca consegue tomar o poder.

O partido marcou um contato com Maria Lucia no Rio de Janeiro. Ela foi com a Ana, ficaram no Hotel Guanabara, bem no centro. O contato era para combinar o meu reencontro com o partido. Ela aproveitou e levou a filha de 9 anos para conhecer o monumento do Cristo Redentor. 

Fui ao encontro de um camarada. Mas havia outro querendo falar comigo. O que estava acontecendo? O partido estava dividido. Após a queda da Lapa uma parte se reorganizou sob a direção do operário e antigo militante  ferroviário José Duarte, com sede em São Paulo. Ele assumiu que era a direção existente, portanto, no comando da organização. Ao mesmo tempo, João Amazonas, Arruda Câmara e Renato Rabelo, desde Paris e Tirana, lembravam que eram os membros do Comitê Central em liberdade e, portanto, eram a direção. 

Fui procurado por representantes das duas tendências e manifestei minha definição pelo que me parecia a continuidade da direção legítima. O partido mergulhou na luta interna. 

No início de 1979, mesmo antes da anistia, decidi voltar à vida legal. Me encontrei com os ex-companheiros de Realidade, Narciso Kalili e José Carlos Marão, este na época casado com minha irmã Yara. O casal fez um churrasco para nos receber. Meus pais haviam se separado anos antes, mas estavam presentes junto com vários amigos.

Por algum tempo continuei colaborando com Movimento. Para ganhar algum dinheiro também fui colaborar com Narciso Kalili, que estava lançando Doçura, uma interessante revista de serviços distribuída gratuitamente nas caixas dos supermercados Pão de Açúcar.

Com a anistia, os dirigentes do PCdoB estavam de volta à legalidade. A direção continuava a publicar A Classe Operária. E decidiu produzir também um jornal legal, mensal, que seria distribuído nas bancas de jornais e vendido a um preço irrisório. 

Coube a Rogério Lustosa, querido camarada já falecido, a direção do jornal. Destacados para a equipe, Bernardo Joffily e sua companheira Olívia Rangel, que estavam voltando de anos de trabalho na Rádio Tirana, da Albânia. Eu era o quarto. 

Antes de tudo tive de enfrentar um triste rompimento. Fui comunicar a Raimundo Pereira que não podia mais continuar colaborando como Movimento porque o partido me chamara para fazer seu jornal. E ainda tinha que ficar na Doçura, de onde tirava meu sustento e da família. Fui para esse encontro acabrunhado, mas Raimundo, como sempre, foi nobre. Declarou lamentar, mas entender. Afinal eu devia disciplina ao partido. 

Fomos criar o jornal que veio se chamar Tribuna da Luta Operária. Mensal, tamanho grande, oito páginas. Texto bem popular etc. Mas como fazer? Dinheiro? Não tem. Sede? Não tem. “Virem-se!” Enfim, com recursos minguados o número zero veio a público em novembro de 1979. Contou com a bela capa de cabeças de operários desenhada por nada menos que o companheiro Elifas Andreato a meu pedido.

Nesse meio tempo eu trouxe a família de Campinas para São Paulo. Maria Lucia tirou os inquilinos do apartamento de sua tia em Vila Monumento, no Ipiranga, e trouxe as duas velhinhas de volta. Com um agravante, elas estavam mais alquebradas. E eu, insensível ao problema, não sei por que, podendo alugar uma casa perto delas, decidi ir morar no Butantã, do outro lado da cidade. Minha desculpa é que era perto do campus da USP, os meninos poderiam ir estudar ali. Nenhum dos dois estudou lá.

Quanto ao filho mais velho, Rogério, com 24 anos, casou-se com uma sul-africana de origem indiana. Por influência dela vendeu o apartamento que comprara no Largo do Pará, centro de Campinas, e foram morar em Bolonha, Itália, a pretexto de cursar a faculdade de medicina.

Na Tribuna a gente fazia de tudo. O jornal estava sendo impresso numa gráfica perto do aeroporto de Congonhas. Um bando de jovens militantes me procurou para que eu os ajudasse e pegar o jornal. Não sabiam dirigir. Queriam que eu dirigisse uma kombi, mas era a kombi mais quebrada, batida, enferrujada, que eu já vira. Ela andava meio torta. E lá fomos nós. Na volta, carregada, eu vim bem devagar, atrapalhando o trânsito, esperando que a polícia não nos parasse. E a turminha se divertindo.

Ultimamente o que estava me empolgando era o trabalho de editor e repórter na revista Doçura. Aos poucos fui aderindo à vida boemia de meus colegas de redação.

Meu histórico de militância foi a maior parte do tempo sozinho, cumprindo as tarefas de propaganda. Fui ficando incomodado com os ruídos, a agressividade das partes naquele processo de divisão e luta interna que estávamos vivendo. E o lado do jornalismo boêmio me atraindo. Em abril de 1980, a greve dos metalúrgicos do ABC, sem receber apoio de outras tendências políticas, foi derrotada. Sensação de que as coisas não avançavam. Desanimei. E deixei o partido. 

Meu argumento era que minha família havia passado por grandes vicissitudes durante anos e agora eu queria cuidar melhor dela. Na verdade, estava deixando em segundo plano o compromisso com a luta, com o povo em abstrato, e voltando-me para buscar o sucesso individual, a satisfação pessoal que eu havia sufocado por mais de uma década de militância política. Não estava passando para o outro lado, nunca passaria, continuava vivenciando a crítica socialista da sociedade, mas procurava outras formas de manifestar buscando um trabalho que também me desse prazer. A volta ao grande jornalismo. Mal comparando, um arremedo de Augusto Matraga?

Dona Julinha, mãe de Maria Lucia e doce criatura, faleceu em dezembro de 1980. Esta continuou cuidando da tia Maria José, que sofria com uma doença que hoje chamamos de Alzheimer. E diabetes, que lhe custou cirurgias nas pernas. Iria falecer onze anos depois, em 1991, Maria Lucia ao seu lado, no Hospital dos Servidores.

Narciso Kali tinha um lado gênio que era saber realizar uma publicação bem-sucedida. Mas acho que ele logo se cansava. Deve ter se cansado de Doçura. O movimento de crítica à violência contra a mulher estava surgindo. Ele me mandou a Belo Horizonte fazer reportagem sobre um engenheiro que assassinou a mulher a tiros, a sangue frio. Contei a história em detalhes. Ele fez uma capa explosiva. Uma bala de revolver está a caminho da cabeça de uma mulher, como havia acontecido. E manchetou: Os maridos assassinos de Minas Gerais!

O Pão de Açúcar impediu a circulação da revista em Minas. E demitiu Narciso. Eu também me demiti. 

Narciso foi trabalhar no departamento de jornalismo da TV Globo de São Paulo, ao lado dos antigos companheiros de Realidade, Woile Guimarães, Luís Fernando Mercadante e Eurico Andrade.

Troquei meu carro, levei a família de férias para Peruíbe. Na volta, em janeiro de 1982, estava sem dinheiro. Os amigos na TV Globo se movimentaram: Woile Guimarães e os outros se juntaram a Humberto Pereira e Gabriel Romeiro, diretores do programa de TV Globo Rural.   

Estava de novo na estrada, viajando por todo o país e deixando com Maria Lucia a responsabilidade de cuidar da casa, de dois filhos adolescentes. Eu não sabia nada de televisão. Mas aos 42 anos tinha história. E sede de rodar pelo mundo.

A ditadura militar chegava ao fim, a campanha das Diretas Já tomava conta das ruas, o movimento popular em ascensão. O general ditador João Figueiredo, doente e desanimado, nem queria mais governar. Havia animação e se renovavam as esperanças pela democracia e por uma vida melhor. Viajando pelo interior tive quase nenhuma participação nesse movimento. Mas no dia 25 de janeiro de 1985 eu e Maria Lucia estávamos no grande comício da Praça da Sé. Naquela manhã eu havia embarcado num avião da Vasp em Campo Grande, Mato Grosso do sul, para participar do comício.

Trabalhava para o programa de TV, Globo Rural, da TV Globo. A equipe era competente e procuramos fazer um bom jornalismo, dando voz aos agricultores e às boas práticas agrícolas. Acabamos por produzir uma reportagem que obteve grande repercussão e ficou na história do programa. A reportagem sobre uma boiada transportada por boiadeiros a pé, cruzando praticamente todo o Mato Grosso do Sul, saindo de Corumbá, na fronteira com a Bolívia indo até a divisa com São Paulo. Produzimos uma série de sete matérias de 10 a 15 minutos cada. 

Indo ao ar por sete domingos contínuos, virou quase que uma novela seguida com entusiasmo por um público recorde no horário das 9 horas. Um resumo dela foi ao ar no Globo Repórter com duração de 40 minutos. Durante alguns anos quando a Globo fazia pesquisa sobre qual reportagem o publico queria ver de novo a Boiada era citada em primeiro lugar.  

Demorei três meses envolvido nesse trabalho, desde encontrar um fazendeiro que concordasse em deixar filmar a viagem de uma boiada de sua propriedade, até trabalhar como repórter e dirigir uma equipe de três profissionais – cameramen, dois auxiliares, de som e luz – nas condições mais difíceis pelo pantanal do Mato Grosso do Sul.

Era janeiro, o Pantanal começava a encher de água vinda das chuvas nos rios de cabeceira. Calor, muito calor. Como acompanhar a caminhada de cerca de 1.200 bois pelo brejo, como dizem os pantaneiros?

Deixei o Globo Rural em 1984 por erros que cometi. Envolvido por pessoa intrigante e ambiciosa por poder, me indispus com Humberto Pereira, o Editor-Chefe. Por arrogância, fui injusto com ele e fiquei sem condições de continuar. 

Em 1985 uma conjunção de acasos me levou a assumir no meio a campanha de TV de Fernando Henrique Cardoso a prefeito de São Paulo.

Em seguida fui trabalhar na TV Cultura, levado pelos meus amigos e irmãos Raul Bastos e Mauro Bastos, este, chefe de reportagem no jornalismo da emissora.

Ali dirigi o documentário Quarenta Anos da UNE. Mas não fiquei muito tempo. Fui chamado pela amiga Ivone Cirilo, chefe da assessoria de comunicação da Secretaria de Educação do governo Orestes Quercia, cujo secretário era Chopin Tavares Lima. E a ajudei a montar a equipe de imprensa da secretaria. 

Carlos Azevedo, Passageiro da História | Outras Palavras
Outras Palavras

Carlos Azevedo, Passageiro da História | Outras Palavras

Outras Palavras passa a publicar as memórias de um grande jornalista brasileiro. Em suas lembranças, um país em que a repressão não era capaz de sufocar a esperança; uma esquerda ansiosa por revolução; e o surgimento de uma imprensa empenhada em desvendar os grandes dilemas de seu tempo

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· 4d ago
A luta dos inquilinos incendeia a Espanha Foto: Sergio Perez/EPA

Por Ben Wray, no Brave New Europe | Tradução: Rôney Rodrigues

A Espanha voltará às urnas em 29 de novembro. A decisão do primeiro-ministro Pedro Sánchez de convocar o povo novamente tem tudo a ver com o movimento social que surgiu na Espanha nos últimos 10 dias contra os despejos e pelo direito à moradia.

A centelha começou com o despejo de Maricarmen, uma inquilina de 87 anos, de seu apartamento em Madri, onde vivia há 71 anos. A polícia agrediu ativistas que tentavam impedir o despejo, e Maricarmen foi retirada numa maca. Um fundo abutre que havia comprado o imóvel queria aumentar o aluguel em mais de 300%. Em resposta ao despejo, milhares de ativistas, incluindo os do sindicato dos inquilinos, ocuparam a praça Sol, em Madri, e montaram barracas: o rastilho havia sido aceso.

O governo espanhol respondeu rapidamente à pressão do movimento, antecipando dois decretos sobre moradia. O primeiro interromperia todos os despejos até 2030, entre outras medidas; o segundo atendia às demandas específicas do sindicato dos inquilinos por contratos incondicionais, com os proprietários tendo que pagar uma penalidade compensatória equivalente a 12 meses de aluguel caso quebrassem o contrato e despejassem o inquilino. O governo não tem maioria e depende do apoio de um grupo de partidos de esquerda, bem como de alguns de centro-direita, para aprovar qualquer lei.

Sánchez organizou os decretos em dois, esperando plenamente que o segundo fosse derrotado por seus ‘aliados’ de direita, o pró-independência catalão Junts per Catalunya e o Partido Nacionalista Basco (PNV), mas que o primeiro fosse aprovado e os despejos fossem interrompidos. No final, o Junts se recusou a votar em qualquer um dos decretos. Há rumores de que o partido de Carles Puigdemont estava sob pressão de bancos catalães e lobbies imobiliários. A derrota dos decretos gerou um alvoroço: dezenas de milhares protestaram em Madri no dia seguinte e muitos milhares mais em toda a Espanha, com ocupações de praças públicas em todo o país.

Por que a derrota do governo serviu de trampolim para convocar eleições gerais? Porque Sánchez teria que convocar eleições até maio de 2027 de qualquer forma, e a questão da moradia é um terreno muito mais favorável para a esquerda do que qualquer outro tema que pudesse dominar uma campanha eleitoral. Antes do despejo de Maricarmen, a política espanhola havia se fixado na crise migratória em Ceuta, após milhares de pessoas entrarem no enclave africano vindas do Marrocos no final de julho. Se a crise de Ceuta definisse a campanha eleitoral, Sánchez não teria chance: o debate sobre imigração é dominado pela extrema-direita do Vox, que arrasta consigo o centro-direita do PP.

A moradia é algo completamente diferente. Em vez de nativos contra migrantes, ou cristãos contra muçulmanos, a questão da moradia é dominada pela divisão entre inquilino e proprietário, entre o jovem que não pode sair da casa dos pais e o fundo abutre que quer despejar inquilinos para abrir espaço para turistas. A crise da moradia é definida pela classe social: de um lado, aqueles que possuem múltiplos imóveis e podem usar sua riqueza em ativos para extrair aluguéis; do outro, aqueles que não possuem propriedades e precisam pagar aluguéis ou hipotecas cada vez mais inacessíveis. Nesse terreno, a tentativa da esquerda de impedir despejos é uma mensagem que pode atrair muito além de sua base: uma grande maioria de eleitores de todos os partidos, incluindo PP e Vox, apoia a convocação do sindicato dos inquilinos por uma greve geral contra os despejos.

O PSOE de Sánchez historicamente ficou do lado do rentista, não do inquilino. Quando a crise financeira de 2008 atingiu o país e quase um milhão de pessoas perderam suas casas, foi o PSOE que estava no governo e socorreu os bancos, ao mesmo tempo em que protegia o direito dos oficiais de justiça de despejar pessoas de suas casas. O movimento antidespejo PAH, que surgiu na esteira da crise financeira, era explicitamente contrário à forma como o PSOE lidou com a crise sob a liderança de Zapatero, até o PP assumir o poder no final de 2011. Nos anos seguintes, o número de inquilinos na Espanha cresceu à medida que a classe trabalhadora foi cada vez mais excluída da possibilidade de comprar uma casa. Mas mesmo quando Sánchez trouxe o PSOE de volta ao poder em 2018, enfrentar a crise da moradia continuou muito longe de suas prioridades.

De fato, a única linha de ataque do PP e do Vox na última semana que tem alguma ressonância é: por que o governo espanhol esperoi oito anos e o despejo de Maricarmen para finalmente fazer algo sério sobre a crise da moradia? O custo dos preços das casas e dos aluguéis disparou durante o governo de Sánchez, enquanto os salários continuaram estagnados. A intensificação da crise da moradia sob o governo de coalizão de esquerda desde 2020 revela a forma fraca de social-democracia que foi implementada: embora o governo tenha falado a linguagem da justiça social e implementado algumas reformas nessa direção, a economia espanhola continuou sendo um motor de inflação de preços de ativos, turistificação e trabalho de baixos salários no setor de serviços.

No entanto, Sánchez sobreviveu no poder até agora porque é uma figura política ágil, capaz de sentir o pulso das massas. Ao responder rapidamente às demandas do movimento por moradia, ele posicionou o PSOE e seu governo de coalizão como defensores dos inquilinos, enquanto PP e Vox se opuseram enfaticamente aos decretos de moradia e, assim, aparecem como porta-vozes das classes proprietárias. A única resposta do PP à crise da moradia é construir mais casas, posição defendida por Jeff Bezos, entre outros. Mas qualquer um que se lembre do boom imobiliário espanhol anterior a 2008 sabe que isso não é solução: de 1998 a 2008, seis milhões de casas foram construídas, e o preço da moradia dobrou. É a aceleração da criação de crédito hipotecário que dita os movimentos dos preços da moradia, não a oferta e a demanda. Ou, dito de outra forma, ninguém acredita que mais casas pertencentes a fundos abutres resolverão a crise da moradia.

Ainda assim, as pesquisas indicam que PP e Vox formarão um governo de coalizão após 29 de novembro. O principal problema de Sánchez é que os partidos à sua esquerda, dos quais precisa para formar uma maioria, perderam força desde as últimas eleições gerais, em 2023, quando PP e Vox ficaram muito perto de conquistar a maioria. A coalizão Sumar, que surgiu em torno de Yolanda Díaz em 2023, assumindo do Podemos a liderança da esquerda alternativa, parecia uma novidade promissora três anos atrás. Agora, está longe de parecer isso. Dividida entre os remanescentes do Sumar e os do Podemos, não está claro se a esquerda é capaz de se unir. E, mesmo que consiga costurar algum tipo de aliança, resta saber se ela poderá ser algo além da união dos que já morreram.

Foi um movimento social de massas, na forma dos Indignados, ou 15-M, que deu novo fôlego à esquerda alternativa espanhola. O Podemos surgiu desse movimento como uma força antissistema dinâmica, com rostos novos. Mas nunca conseguiu tirar do PSOE o posto de principal protagonista da esquerda na política espanhola.

No fim das contas, a esquerda acabou sustentando o PSOE no poder, enquanto o próprio PSOE passou a incorporar cada vez mais o discurso da esquerda. No pronunciamento em que anunciou as eleições, Sánchez afirmou que precisava de uma maioria de votos para poder “colocar as elites na linha”. Com a polarização da Espanha em dois blocos, um de esquerda e outro de direita, Sánchez se tornou a principal figura do primeiro.

Mas a matemática eleitoral não mente. Sánchez não vencerá sozinho. Precisará que a esquerda alternativa alcance pelo menos cerca de 10% dos votos para ter uma chance real de formar governo novamente. Isso parecia improvável antes da eclosão do movimento por moradia, e ainda parece pouco provável. Mas, se essa esquerda conseguir canalizar parte da revolta antissistema que anima o movimento, quem sabe?

Os ativistas pelo direito à moradia têm boas razões para desconfiar de que seu movimento seja instrumentalizado e desviado para fins eleitorais. Mas também podem enxergar uma oportunidade: se a esquerda conquistar uma vitória surpreendente em 29 de novembro, todos saberão que ela tem o movimento por moradia a agradecer. E o impulso político que isso daria ao movimento poderia ser imenso.

Por outro lado, se a direita vencer e tivermos um partido de extrema direita no governo pela primeira vez na Espanha desde o fim da era franquista, podemos esperar uma guinada acentuada em direção ao autoritarismo. Em particular, o Vox deverá buscar avançar em seu projeto de um Estado espanhol centralizado, reduzindo o poder das forças independentistas da Catalunha e do País Basco. O objetivo será retirar poderes das comunidades autônomas, para que a Espanha não volte a enfrentar um movimento separatista como o que vimos na Catalunha há quase dez anos. Todas as tentativas feitas durante os anos de governo de Sánchez para construir uma Espanha plurinacional serão revertidas.

As antigas divisões que marcam a Espanha — de classe e de identidade nacional — ficaram, em certa medida, em segundo plano durante os anos de governo progressista, mas nunca desapareceram de fato. A dimensão de classe voltou com força total com o movimento por moradia. Se PP e Vox vencerem as eleições, as divisões nacionais também voltarão ao centro do debate político.

braveneweurope.com

Ben Wray – The housing movement has transformed Spanish politics, and might save Sánchez on 29 November – Brave New Europe

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· 4d ago
Antropologia das bets: de Bali ao Brasil Imagem: Reprodução/Agência Mural

“O que a briga de galos diz que diz, em um vocabulário de sentimentos – é a emoção do risco, o desespero da perda, o prazer do triunfo. Assim, o que diz não é apenas que o risco é excitante, a perda deprimente, ou o triunfo gratificantes, tautologias banais de afeto, mas que é destas emoções, assim exemplificadas, que a sociedade é construída e indivíduos são colocado juntos. Ir às brigas de galos e participar delas é, para o balinês, uma espécie de educação sentimental” (Geertz, 1978: 449). 

Recentemente também abordadas em questões eleitorais, as ditas “bets” são para além de discussões econômicas, financeiras ou legais, e claro, de saúde mental relacionadas à ludopatia – um assunto cultural, ou seja, do universo humano simbólico.

A aposta em si já foi alvo recorrente daquilo que se pode ter como risco mais profundo das ambições humanas, seja com a aposta de Fausto no frenesi da vida em Goethe ou com histórias e estórias que todos já vimos ou ouvimos sobre os infortúnios de quem ficou rico em alguma loteria mas que perdeu tudo ao longo dos anos, dos vícios e dos anseios, no cotidiano humano, filiar-se a uma perspectiva única mesmo que não racional, contra todas as estatísticas e inimizar contra aquilo que seria sensato ou transpor as circunstâncias. 0,5% de chance, uma em um milhão, cinco para cem, não importante, a aposta é algo que como já dizia o título do texto de Celso Vianna Bezerra de Menezes – há “Razões que a ‘razão’ desconhece“ – e esse mesmo desconhecimento faz portanto o tema que aborda o texto é sobre Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande (2005), do antropólogo britânico E. E. Evans-Pritchard, e versando sobre o pragmatismo paradoxal, magia ou o infortúnio cotidiano, os antropólogos sempre tentaram entender o que faz um homem em suas “sãs” faculdades mentais e optar pelo risco, pelo imprevisível ou pelo improvável mesmo quando não há possibilidade ou quiçá probabilidade tangível, e “por que” ou os “por quês”, persistem e o que há nessa crença (ou descrença da irracionalidade. Em termos de “Hard Science”, não somos bons em estatística, nem mesmo especialistas, Amos Tversky e Daniel Kahneman já receberam prêmios Nobel comprovando isso.

Longe de ser um problema isolado, procurar este porquê, como vimos recentemente, possui impacto político eleitoral de repercussão nacional e não é à toa – se considerar aqui dados divulgados pela StartSe mostram que cerca de R$ 143 bilhões saíram do comércio varejista para ir para os sites de apostas, impacto é maior nas famílias das classes C, D e E, que usam parte do orçamento de itens essenciais para apostar – as apostas se tornaram um dos maiores motivos de endividamento no país, superando o efeito de juros e empréstimos tradicionais em alguns setores e segundo o MADE, como a maioria das pessoas perde o dinheiro apostado, o valor não retorna para a economia real em forma de produtos ou serviços. Na temática antropológica não há novidades na dita relação entre valores, crenças e economia, para ficarmos no exemplo clássico, Bronisław Malinowski, o funcionalista que edificou a observação participante como método nos Argonautas do Pacífico Ocidental esteve bem interessado nessa interpretação de trocas e reciprocidades de valores, dos Kula de ilhas do norte ao leste e extremo oriental da Nova Guiné entre 1914 e 1918 – válido lembrar que o mesmo também se interessou pela temática simbólica dos valores em si, tendo estudado na London School of Economics (LSE) em Londres. Para não desviar na curiosidade infinita e da fascinação das antropólogas e dos antropólogos sobre crenças, valores, acúmulos e economia, passamos aqui ao exemplo para além da antropologia econômica, o de Clifford Geertz e sua obra “A Interpretação das Culturas” de 1973. 

Clifford Geertz, considerado um antropólogo pós-moderno ou como representante da antropologia interpretativista têm aqui um curioso caso de como a antropologia pode emanar algumas hipóteses, observações ou ilustrações sobre as ditas apostas, e é no capítulo artigo “Jogo Profundo: Notas sobre a Briga de Galo em Bali“. Geertz, vai até Bali analisar como tratá-la como um passatempo ou um rito, as duas alternativas mais óbvias, mas que estas tenderiam a obscurecer seu uso fundamental como “finalidade cognitiva e emocional” ou seja – um jogo mais profundo. Geertz observa que a construção emocional à partir dos absurdos quantitativos das apostas criava naquele povo uma construção afetiva sobre como o risco estabelecia uma lógica nada racional de tal dinâmica chegando a construir uma tabela e provando numericamente isso. A construção da individualidade e da masculinidade e, portanto, a construção de uma personalidade à partir das apostas de brigas de galo era peça teatral (como Macbeth) que revela as tensões da natureza humana e da hierarquia local (USP), guerra de Eus Simbólicos, pois os galos representam os próprios donos (sabung); eles funcionam como extensões metafóricas da masculinidade, do ego, do orgulho e da honra dos homens balineses e a disputa de Status e Hierarquia. O que está em jogo nas apostas pesadas não é o ganho financeiro em si, mas o status, o prestígio e a posição das facções e linhagens dentro da aldeia. Como se insere isso no contexto brasileiro da contemporaneidade sobre as as bets?

Boa parte das apostas, são apostas esportivas e estas mesmas cresceram de forma expressiva no Brasil, com alta de 734,6% no volume de empresas e serviços do setor entre 2021 e 2024, e um aumento de 153% no número de plataformas ativas no mesmo intervalo (MADE) sendo um total de 50 milhões de jogadores (MADE). A origem do campo em si, é essencialmente relacionada com a expansão autorizada por Michel Temer das bets, mas a essência, é como já disse Nelson Rodrigues:  “para nós [brasileiros], o futebol não se traduz em termos técnicos e táticos, mas puramente emocionais” – na intercessão entre sociedade brasileira, aposta e esporte cria-se então a “tempestade perfeita” para a afetividade, a financeirização nessa fase atual do capitalismo catastrófico, tecnologias digitais, propaganda e as formas mais absurdas de evasões de divisas e lavagem de dinheiro aproveitam, pois há como extrair (e concentrar) valor à partir de tal afetividade simples: na metafísica da crenças – e como não há nada mais metafísico do que o senso comum, poder mudar de vida baseado em saber quantos cartões vermelhos em um jogo ou quiçá se o seu time ganha, é criar a tal tautologia de afetos. 

Tal tautologia de afetos, diga-se que aqui com uma referência importante para o texto de Geertz – enquanto aposta em brigas de galos seria fator agregador da sociedade balinesa, a nossa, está sendo motivo de desagregação, pois apesar do efeito manada produzido pelas bets, a sociedade capitalista contemporânea centra-se na lógica individual, na lógica que o indivíduo ficará rico só contra todos ou contra todas as circunstâncias, também muito amparado numa espécie de “salvacionismo” heróico da figura bíblica e Davi em uma sociedade em franca expansão neopentecostal. A insistência mesmo apesar da perda (que claro, possui aspectos de saúde mental) têm a centralidade nas formas de masculinidade expressadas pelas apostas em bets a partir da narrativa ou do arco do herói, e é quase que como Santiago no Velho e o Mar de Hemingway, em que acreditava que sua teimosia deveria ser premiada. Aqui, então, mistura-se: a crença com a narrativa em si de alguém especial mesmo que na derrota com a descrente improbabilidade numérica exposta. Em Bali, a aposta ocorre entre pares na praça pública, em um ritual frente a frente onde o dinheiro circula dentro da própria comunidade (mesmo que haja redistribuição de status). Nas bets, o dinheiro sai da comunidade e vai para paraísos fiscais (extração predatória de renda por plataformas algorítmicas sediadas em Curaçao, Malta).

Claro, Bali não é o Brasil, e futebol não são brigas e de galo, mas o ponto: há muito o que se falar e há mais ainda o que se perguntar e ler sobre a temática da antropologia, crença e o colapso do capitalismo atual e suas relações com a toxicidade da persistente autodestruição que determinados comportamentos têm se colocado – principalmente de como politicamente isso é aproveitado pela extrema-direita e pelos mecanismos de extração de valores atuais; O que foi escrito anteriormente é só uma amostra do tempo em que estamos e de como devemos olhar para antropologia não como mero instrumento ou ferramenta de análise com relação ao comportamento humano ou social – há raízes profundas no simbolismo na cultura, e principalmente: há na antropologia um espelho virado para dentro que nenhum mecanismo estatístico vai poder capturar, que é a densidade das emoções e sentimentos humanos, a agência das mesmas sobre uma sociedade inteira e o quão estamos inseridos em sistemas complexos demais ao ponto de apenas a exterioridade de nós dar significado há alguma coisa, aliás, deveras talvez seja o oposto ou pelo menos, a aposta no oposto.


Referências Bibliográficas:

EVANS-PRITCHARD, Edward Evan. Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande. Edição abreviada. Tradução de Eduardo Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC – Livros Técnicos e Científicos Editora, 1989. [Inclui o capítulo “Jogo profundo: notas sobre a briga de galos em Bali”, p. 185–221].

GEERTZ, Clifford. Jogo profundo: notas sobre a briga de galos em Bali. In: GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978. p. 449. [Referência específica correspondente à citação direta no texto].

GOETHE, Johann Wolfgang von. Fausto: uma tragédia. Tradução de Jenny Klabin Segall. São Paulo: Editora 34, 2004.

HEMINGWAY, Ernest. O velho e o mar. Tradução de Fernando de Castro Ferro. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013.

MALINOWSKI, Bronislaw. Os argonautas do Pacífico Ocidental: um relato da empresa e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné Melanesia. Tradução de Anton P. Carr. São Paulo: Abril Cultural, 1976. (Os Pensadores).

MENEZES, Celso Vianna Bezerra de. Razões que a “razão” desconhece: notas sobre infortúnio, feitiçaria e pragmatismo entre os Azande. In: Cadernos de Campo (São Paulo – 1991), v. 14, n. 13, p. 1-15, 2005. [Ou referência correlata ao ensaio citado sobre a obra de Evans-Pritchard].

RODRIGUES, Nelson. À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

MADE – Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (USP). Apostando no colapso: os impactos socioeconômicos das apostas online no Brasil. Nota de Política Econômica, São Paulo, 2024.

STARTSE. Raio-X das apostas online no Brasil: o impacto das Bets no consumo, varejo e endividamento das famílias. Reportagem/Análise de mercado, 2024.

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP). A antropologia da aposta e o status social: leitoras e leitores de Clifford Geertz. Portal de Notícias USP / Jornal da USP, São Paulo, 2024.

Estudo: R$ 143 bilhões migraram do varejo para as bets
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Estudo: R$ 143 bilhões migraram do varejo para as bets

O avanço das apostas online está redesenhando o consumo, o crédito e o comportamento financeiro das famílias brasileiras: para pior.

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· 4d ago
O que o congresso eleito em 2026 reserva para a saúde? Crédito: Agência Senado
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Mais espaço para o mercado em debates como a Lei de Planos de Saúde e um olhar conservador sobre temas centrais, como o Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS). Essa é a análise feita pela Jota em recente matéria sobre o que esperar do Congresso eleito em 2026 a respeito dos debates sanitários. A análise destaca, também, assuntos que são visados por diferentes campos políticos, sendo a saúde digital o principal exemplo.

Isso porque o primeiro turno das eleições nacionais consolidou a maioria da direita no Poder Legislativo. Com 121 das 513 cadeiras ocupadas apenas pelo PL, partidos aliados ao presidente Lula enxergam dificuldades em manter uma contraposição pelas vias institucionais. A nova correlação de forças deve influenciar diretamente a tramitação de projetos relacionados à saúde e ampliar o espaço para propostas alinhadas aos interesses do setor privado.

O cenário, contudo, será definido pelo resultado da disputa presidencial. O Outra Saúde debate qual é o SUS do programa de Flávio Bolsonaro em uma recente publicação. Entre os planos do candidato do PL, estão um “tesouraço”, que implicará na redução do orçamento da saúde. Além da previsão de desvincular os gastos mínimos obrigatórios com saúde, hoje 15% da Receita Corrente Líquida.

Prefeitura de SP ainda não voltou a oferecer aborto legal no Cachoeirinha?

A cruzada da prefeitura de São Paulo contra o aborto legal no hospital Cachoeirinha, na zona norte da cidade, acaba de ganhar mais um capítulo. A juíza Vanessa Velloso Silva Saad Picoli considerou insuficiente a documentação apresentada para comprovar a regularidade do serviço.

Assim, a gestão Ricardo Nunes recebeu o prazo de 15 dias para apresentar escalas completas das equipes de saúde, além dos registros de frequência profissionais desde a data da suposta volta do serviço: 18 de março deste ano. 

Indo além, a magistrada pede um outro registro relevante: em casos em que a assistolia não é realizada no próprio hospital, deve haver comprovação da existência de vaga regulada e da continuidade do atendimento. A atualização sobre o caso foi divulgada na coluna Mônica Bérgamo, em matéria recente.

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• Vacina brasileira contra a malária 

A Anvisa concedeu o aval, nesta quarta-feira (7), para que se iniciem os testes em humanos com a vacina brasileira contra malária. O fármaco foi desenvolvido pela UFMG em parceria com a USP e o laboratório Cristália. Saiba mais

• Aedes aegypti

Apesar de uma melhora significativa em relação ao ano anterior, o resultado do 2º ciclo do Levantamento Rápido de Índices para Aedes aegypti (LIRAa) mostra uma situação de alerta ou de risco para a presença do mosquito em quase metade dos 3.732 municípios que encaminharam dados ao governo federal. Conheça os dados

Obesidade infantil

• A OMS divulgou suas primeiras diretrizes sobre obesidade entre crianças e adolescentes. A entidade destaca que, em 2024, 170 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 19 anos viviam com obesidade. Nessa faixa etária, a indicação é a mudança de estilo de vida, evitando métodos como bariátrica e canetas emagrecedoras. Confira o documento

• Ebola no Quênia

Em texto recente, o Al Jazeera explica como uma única morte por ebola no Quênia tem provocado temores a respeito de uma propagação mais ampla na África. O país registrou seu primeiro caso da doença após a morte de um paciente em Nairobi. Entenda

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